Uma investigação parlamentar sobre o meme-coin do presidente argentino LIBRA
A Argentina encontra-se numa encruzilhada no que agora é chamado de “Libragate“, um escândalo estrondoso em torno da memecoin LIBRA que abala a presidência de Javier Milei.
A Câmara dos Deputados votou ontem, numa sessão especial, a abertura de uma investigação oficial para esclarecer totalmente este assunto, marcando um marco na história recente das criptomoedas no país.
Os deputados argentinos aprovaram três resoluções principais com uma maioria de 128 votos contra 93. A primeira cria uma comissão de inquérito dedicada ao escândalo LIBRA, enquanto as outras duas exigem a comparecência de altos funcionários do governo e relatórios detalhados do executivo.
Entre as figuras convocadas estão Guillermo Francos, chefe de gabinete, Luis Caputo, ministro da Economia, Mariano Cúneo Libarona, ministro da Justiça, e Roberto Silva, diretor da Comissão Nacional de Valores Mobiliários.
Maximiliano Ferraro, deputado da Coligação Cívica, resumiu o impulso coletivo da oposição: “A sociedade tem o direito de conhecer a verdade.” Esta investigação promete examinar não apenas as ações do presidente Milei, mas também os mecanismos que permitiram tal desastre financeiro diante do governo.
Um colapso com consequências devastadoras
Tudo começou em 14 de fevereiro de 2025, quando Javier Milei publicou uma mensagem no X elogiando as virtudes do token LIBRA, apresentando-o como uma ferramenta para “impulsionar a economia argentina” apoiando pequenas empresas.
O efeito foi imediato: o valor do token disparou mais de 3.000%, atingindo uma capitalização de 4,56 bilhões de dólares. Mas horas depois, a queda foi igualmente espetacular, com uma perda de 90% de seu valor, aniquilando mais de 280 milhões de dólares para cerca de 75.000 investidores.
Milei removeu rapidamente sua mensagem, alegando não ter conhecimento dos detalhes do projeto e limitando-se a um mero apoio ao empreendedorismo privado. Essa explicação não convenceu nem os investidores arruinados nem os opositores políticos, que veem nela uma tentativa de minimizar um escândalo com ramificações muito mais profundas.
Suspeitas de manipulação e fraude
As primeiras investigações revelaram um padrão perturbador. Entidades como a Kelsier Ventures, envolvidas no lançamento da LIBRA, teriam controlado 85% da oferta total de tokens antes de serem colocados no mercado.
De acordo com documentos judiciais, esses insiders teriam manipulado a liquidez para obter mais de 110 milhões de dólares em lucros, deixando os investidores comuns com ativos sem valor.
Julien Dupont, analista de criptomoedas, é claro: “Isso não foi apenas um ‘rug pull‘. A estrutura e a promoção da LIBRA, com o aparente aval do presidente, apontam para uma complexa rede de conflitos de interesses e manipulação.“
O escândalo ultrapassou as fronteiras argentinas em 18 de março, quando o escritório de advocacia Burwick Law apresentou uma ação coletiva em Nova Iorque contra a Kelsier Ventures, o Protocolo KIP e a Meteora, acusando essas entidades de práticas enganosas e fraudulentas. Esta dimensão internacional aumenta a pressão sobre Buenos Aires.
Um golpe duro para Milei e suas ambições
Depois de um ano no poder, Javier Milei poderia gabar-se de notáveis sucessos econômicos: a inflação caiu de 25,5% mensais em dezembro de 2023 para 2,7% em dezembro de 2024, e o país registrou seu primeiro superávit orçamental em 14 anos.
Mas o escândalo LIBRA ameaça reduzir a nada sua imagem de homem incorruptível providencial. A seis meses das eleições legislativas de outubro de 2025, seus adversários políticos estão a explorar esta crise para questionar sua credibilidade.
A oposição argumenta que este caso contradiz diretamente as promessas anticorrupção de Milei. “Este escândalo nos humilha internacionalmente”, afirmou o deputado Leandro Santoro, que não descarta um processo de impeachment caso as provas se acumulem.
Rumo a uma regulamentação cripto reforçada ?
Para além da política, o “Libragate” levanta questões cruciais sobre o futuro das criptomoedas na Argentina. O país, que ambicionava tornar-se um hub regional para ativos digitais, depara-se com uma lacuna regulamentar significativa. “É um sinal de alerta”, analisa Sylvie Benoit, especialista financeira. “Para concretizar suas aspirações cripto, a Argentina deve estabelecer proteções sólidas para os consumidores e garantir a integridade do mercado.”
Enquanto a comissão parlamentar inicia os trabalhos, o escândalo LIBRA torna-se um caso exemplar para a indústria cripto mundial. Ele ilustra os perigos de uma regulamentação frouxa e os riscos inerentes à febre dos meme-coins, especialmente quando são promovidos por figuras políticas influentes. Para Milei e a Argentina, os próximos meses serão cruciais: a verdade virá à tona, ou este fiasco será apenas mais um capítulo na tumultuada história econômica do país?
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